


XXV
TÁBUAS
Poemas
numerados em ordem de criação
I
leio em lúcia
a sua astúcia
flô e pelúcia
leio em lábio
o corno fábio
maridão sábio
sabe que ela
traia cadela
casada stela
dia apareceu
fabinho e eu
camar nasceu
Impressões
sob pressão alta
o
todo que se descortina
menina embebida em fogo
aurora que não termina

The
Rock
Is on the table
The table.
The Beatles
On the table.
The table
Sing yelow
Submarine.
Is on the table?
Is on the table
This table?
Along the lesson
One is forever?
Hendrix
No subsolo lunar
Hendrix desata silencioso
Cada corda do que foi
Cada nota do que é
Decola cerebral
Da perturbação constante
Ecos de distorção
Amplificados pela baioneta da paz
Com que furava amplificadores

cerebral
lâmina
labial carne que
tende
à língua
gen
O
MEU PRIMEIRO LIVRO QUE É O SEGUNDO
ou
o que eu não disse ou mais do mesmo
ou finalmente um plágio.
"ESSA SAUDADE QUE EU
SINTO DE TUDO QUE EU
AINDA NÃO VI."
RENATO RUSSO
Your
Song
....Às vezes eu brincava com meu pai troçando
deste amigo X e dizia da minha inveja pelo fato de ele ser tão admirado
pelo meu velho. Ele se casou naquele meio-dia e com uma mulher bonita Y e
eu não estava lá como nos últimos tempos. O primeiro
filho do casal nasceu sem cérebro. Uma criança sem cérebro
não pensa e não vive e não nada e por mais amor que se
possa ter a uma criança sem cérebro: uma criança sem
cérebro é uma criança sem cérebro. O que meu amigo
X e sua mulher Y poderiam fazer? Naquelas noites frias em que olhavam o que
eu não consegui olhar por tristeza certa vez quando estiveram aqui
em casa (os olhos estroboscópicos) do menino sem cérebro, algumas
lágrimas terminavam em beijos de esperança pois quem sabe um
dia e uma nova droga e o filho curado e como um pai ama um filho mesmo que
não tenha cérebro. Eu me pergunto muito se há razão
no sofrimento e me pergunto o por quê acontecem certas coisas a pessoas
que são silenciosamente meigas e bacanas como o meu amigo X. Que gosta
de meu pai e daquele som do Elthon Jhon. Tempo passou e eu um dia lhe falei
que um outro filho e uma outra tentativa e um novo tempo poderia chegar. Mas
e os riscos? O que aconteceria ao meu amigo X se outro filho nascesse sem
cérebro ou com outro problema. Todo mundo quer ser feliz, porra.
Qual felicidade me invadiu quando o menino XY nasceu e normal e meu amigo
X e sua mulher Y estavam tão sorridentes e felizes e prontos para um
futuro junto e para um carro novo e um apartamento e o mais importante: o
amor que iria unir meu amigo X, sua mulher Y e o filho XY. Mas havia o menino
sem cérebro que veio a minha casa e eu novamente reneguei meu olhar
para não melhorar quem sou. Deve ser duro ser sem cérebro! O
que ele pensa? O que ele faz?
Talvez meu amigo X estivesse fazendo o que sempre fazia martelado pelo pensamento:
"Eu botei no mundo um garoto sem cérebro e a culpa é minha";
diante do médico. Era manhã e o doutor sorria como sempre até
dizer o resultado de mais um check-up que daria forças para meu amigo
X seguir na luta e continuar existindo cada vez melhor como quer todo o ser
humano. Resultado do exame. A mulher Y e o meu amigo X e o menino XY estavam
com AIDS. O único saudável era o menino sem cérebro.
The Dreamers
....Oi pai. Oi mãe. Aqui é
o Armando. Eu cansei do sofrimento todo que a nossa nação passa
e a nossa família e a nossa raça. Há muito tempo encontrei
alguns amigos que me mostraram um outro mundo e uma maneira de mudar este
mundo. São alguns amigos que me prometeram que esta fita ia chegar
às mãos de vocês quando eu embarcasse naquele vôo
para todos os meus infinitos. Sei que me prometeram o céu e que eu
terei o céu e muito mais que deus, um dia eu verei vocês. Penso
agora em como livrar do mundo alguma dor que esteja doendo em todos. Olho
para o meu pai e vejo um homem pobre catando lixo e corcunda, precisando de
óculos e tendo que lavar os carros destes milionários e cavar
a cova e cobrir de areia todos os nossos sonhos. E você mãe,
quantos olhares lindos apagaram no dia em que, no seu aniversário não
havia bolo, não havia vela e apenas oramos com uma fita amarela do
senhor do Bomfin.
Olha este cara. Ele é o baterista. Olha este com a guitarra e este
outro na bateria. Somos um trio. Hoje, dia 11 de setembro de 2001, estamos
indo para Nova York e vamos tocar para milhares de pessoas. Será o
primeiro dia de todas as nossas vidas como The Dreamers. Na verdade iremos
explodir um avião na glande do tio Sun. Faço isto pelo Joça,
o meu irmão mais novo. Quero que ele coma melhor e vista melhor e viva
no mundo melhor e que se nada mudar, quando complete 14 anos, venha sonhar
conosco em uma nova empreitada. Eu morrerei por vocês e por quê
não há motivos para não acreditar que meu sonho tudo
mudará. Espero que o Joca não venha a morrer por vocês
também e que todos não venham a morrer por mim. Antes de colocar
um punk rock no meu walkman e partir para a luta, vou ouvir "ALL WE NEED
IS LOVE", dos Beatles. Pensarei em vocês durante dois minutos.
Rezarei. Depois tudo acaba. Que Deus esteja em cada coração
verdadeiro.
"Love, love, love..."


orquestra
som sob a estação
sobre
posição
sombra sobre sombra
orquestra
no ensaio de fellini
tomba
noite
de verão
gramados amarelo-punk
chaminés cuspindo
redondas formas
que poderiam ser
cachos de cabelo
círculos concêntricos
(mas que são
fumaça
do século
dezenove)
e o sol no quadro
na tela
e em posição
de sorriso
eterno fluxo
flutuante
inclusive crepúsculo
Têmporas
(poemas apenas pequenas algemas de liberdade)
um but
por dia
é o mínimo
em micro companhia
*
enamoradas
as nuvens cinzentas
apagam o sol
*
Poeira na soleira
Ratos em briga
Por alçapões
*
cuspo
pro alto
guarda-chuva
é pra isso
narciso era
no fundo
do lago
uma mariposa
1.a s f a l t o
o sangue no
anão do sol
asfalto no império
dos sentidos
a gota de suavidade
bueiro indo
campos no
concreto de Negro
Azul e Vermelho nó

Janelas
deitadas
(síndrome)
surtomania
1
pânico
no circo
alado
das têmporas
endorfinas
macaqueando
a goiabada
pineal
volts
em volta
eletrodos
todos
de branco
culpados
culpas
pecados
haldol
no leite
ralo
do tempo
clitóris
de plástico
na sopa
de adrenalina

1
Seria uma honra ser escultura,
Mas me moldaram vivo e
Eu sou tudo e nada posso ser.
Tenho
que olhar sempre o nada,
Foi me dito que tudo é sempre.
E assim vi as caravelas chegando.
Vi
os gerânios crescendo sem
Poder tocar ou sentir o aroma.
Cheiro só de bosta. Os mendigos
Sempre
deixavam seu quinhão
Aos meus pés. Até que um
morreu no fogo dourado
Desde
então alguns ministros
Passaram a defecar aqui também.
Neste bronze de sardas .
Eu
esperei a chuva. Eu fiz
A dança da chuva dentro de mim.
E me libertei num dia negro.
A
água desaguou chuviscada.
Pirâmides de cabeça para baixo
Era mais merda. Era o dilúvio.
Assim sai da merda para merda.


dito
ao verso que lhe espero
você se esmera esmeralda
a vestir véu e grinalda
dito
ao verso que lhe quero
você caiu em minha rede
estendida entre as paredes
por isso olhou convexa
depois despoluí o olhar
para fincar as flechas
envenenadas do ato amar
anote então em seu corpo
que lhe quero, a flor em pele
lamino, pênis, delicado, torto
colher de colher mulheres
José
Silvério Trevisan
Sobre o conto Masturbatória "UMA TEMPORADA NAS TÊMPORAS"
uau, vc escreve bem diário, meu amigo. Henry Miller te espera na esquina. Eu gostaria de suscitar no Balaio essa discussão sobre as fronteiras entre pornográfico e literário.
Professor
Silas Correa Leite
sobre contos de "UMA TEMPORADA NAS TÊMPORAS"
Parabéns pelos seus, ponhamos, microcontos - instantãneos urbanos -modernos, diretos, bem escritos e concluidos. São favas de dias contados com conhecimento da palavra, e o olhar severo de quem tira leite de pedra em tempos tenebrosos (muito ouro e pouco pão?), de quem - pulando a carniça do trivial - enxerga em close, narra em prumo humano e traz o cotidiano insarado para os livros dos dias, como cantou aquele roqueiro chamado maldito, que dizia que algumas pessoas passaram pela vida e perderam a viagem, num blues visceral. Você tem estilo, jeito, tessitura, com seu badame de palavras ao narrar o cotidiano com vinhos e verbos. Você vai longe. Ou longe em tempos de neoliberalismo globalizador (amoral e inumano), é um estar em si mesmo, traduzindo o intraduzível, inventando o inexistente, tocando fogo na canjica da pequeno-burguesia com seu refil de consumos em pote de angustia?.Trace a saga. Toque a sagração da rotina com seu verniz de estupefação. Que seus dias contados revelem o ser para si mesmo, em palavras novas. E isso já é muito-tudo. Habemus um leão em canteiros de jacintos cortados com o gume da navalha que existeo no olhar de quem sente com o encantário da criação pura e limpa.
Cláudio
Daniel, poeta "SÍNDROME"
(...)considero muito bons: surtomania (troque o título, mas o poema é excelente), eletroche natural, o primeiro dia (que pode melhorar, em segunda versão...), "como ser poeta assim", rimbaud (jóia),maiakovski"
Lau Siqueira, poeta "IMPRESSÕES SOB PRESSÃO ALTA"
"Belas
impressões, Rodrigo"
Ademir Assunção Poeta "XXV TÁBUAS"
"De tudo o que se escreve, só admiro o que é escrito com o própriosangue" (Nietszche) Teus poemas têm sangue e suingue. Estou lendo com calma. Batem forte os poemas em prosa da segunda parte. Você deve ser um sujeito atormentado. Como a maioria dos poetas que admiro."
Antonio Carlos Secchin "NO LITORAL DO TEMPO"
"é necessário distinguir a necessidade intrínseca de expressão (que pode demandar variadas formas) do virtuosismo verbal; no seu caso, a meu ver, convivem ambas as vertentes . Metáforas originais, arraigadamente pessoais(o melhor de sua poesia), ao lado de certas facilidades retóricas, como por exemplo o fluxo próximo ao surrealismo e a insistência escatológica.
Regis Bomviccino "HÁ FLORES NA PELE"
"Rodrigo,seus poemas me agrandam e tem um bom nível.Parabéns".
Donizete Galvão "HÁ FLORES NA PELE"
" Rodrigo, danado, você estava como dizemos em Minas, "escondendo
o leite". Os poemas são muito bons. Agora, não era bem
a Nara que era tarada. Gosto muito de Amar pra sofrer, Pra navegar em silêncio,
Couve e feijão, a parteira."
Frederico Barbosa A poesia vertiginosa e impactante do livro "JANELAS DEITADAS"
"(Síndrome)", de Rodrigo de Souza Leão é de tirar o fôlego, da primeira àúltima página. Começa com a "surtomania" de "volts / em volta / eletrodos / todos"... e segue fazendo poesia mesmo, em que a forma significa e amplifica um conteúdo verdadeiro e pungente. A Síndrome de Pânico não seria, em menor ou maior grau, a doença de todos hoje? Pois Rodrigo descreve uma internaçãoem hospital psiquiátrico com a força e os detalhes de quem sentiu tudo por dentro e, eis a verdadeira poesia, nos faz sentir a angústia e o desespero de quem quer se manter vivo nesse mundo manicômio. Em tempos de poesia rala, descritiva e intelectualóide, a poesia de Rodrigo de Souza Leão é um antídoto perfeito. Linguagem densa e enxuta a serviço da emoção mais crua. Impossível ler sem sentir um soco no estômago. Impossível não se impressionar. E Rodrigo convoca Rimbaud, Baudelaire, Drummond, todos relidos à luz de nossos dias, todos fazendo sentido. Não estão lá apenas para ostentar conhecimento: significam! O livro se fecha com o seu "resumo" : pulei / de uma janela / deitada // andei / na nata iceberg / do leite // caí / de pára-queda / no nada // subi / cavando / com enxada". Em resumo, é preciso que se conheça a poesia de Rodrigo de Souza Leão. Poesia rara que se faz sentir e que sobe, "cavando / com enxada" dentro do leitor.

Quantas palavras eu usei para dizer apenas: Sou anti-Niezsche.

Um Lugar Quaker
De onde não se volta.
De onde não se vê quem vai.
Um lugar Quaker
Além de quem entra
e aquém de quem centro
de si não é.
Um lugar Quaker
Ermo de mim
Meta de ti.
Linguagem genética
Um lugar Quaker
Fremes em tua testa
Deserta aresta.
Que em mim carrego.
Este lugar Quaker
Unico todo onde estou parte.