Balacobaco ano VI - número 69 - Rio de Janeiro, 25 de maio 2003.


ENTREVISTA COM ANA ELISA RIBEIRO

Ana Elisa Por Ana Elisa

Nasci em Belo Horizonte, em agosto de 1975, o que significa que tenho 27 anos, dos quais 15 dedicados à insistência e à poesia. Não há precedentes de vida artística na família, o que me custou muita raiva e muita persistência. Formei-me em Letras/Português pela UFMG e fiz mestrado em Lingüística, pra não ser contaminada pela Literatura de academia. Li pacas enquanto fazia os ensinos fundamental e médio. Na faculdade, eu brochei. Não me casei (ainda?), não tive filhos, meus pais e avós (todos) estão vivos, o que significa que alguns de meus livros passarão bom tempo engavetados ainda. Passo os dias cuidando de livros alheios e as noites, quase sempre, nos botecos dos arredores da minha casa, mas acho que não morrerei tuberculosa.

Saí pouco de Belo Horizonte e não me interesso por deslocamentos. Sou professora de Literatura em uma escola de ensino fundamental, porque acho que ainda tem jeito de melhorar alguma coisa se cortarmos os males pela raiz ou dos males, os menores. Também sou uma empresa que presta serviços de edição e revisão para várias editoras mineiras (além dos amigos, para os quais quase sempre trabalho de graça). Escrevo crônicas e outras prosas para alguns jornais e agências. Publiquei um livro aos 22 anos (Poesinha, Belo Horizonte, Poesia Orbital, 1997) e outro livro em 2002 (Perversa, São Paulo, Ciência do Acidente, 2002). Acho que repetirei a façanha em 2003, em dose mais alta. O meu barato é a poesia. Mesmo.




1.Como foram estes quinze anos dedicados à poesia?

* Dediquei 15 anos à poesia, mas acho que cada ano teve uma qualidade e uma novidade. Os anos anteriores ao dia em que conheci a poesia de Paulo Leminski foram anos de procura, de poemas longos, de imitação de tudo quanto eu lia, de insatisfação, de pieguice, de romantismo de adolescente, de palavras difíceis pesquisadas no dicionário. Depois que li o Leminski, saquei qual era a minha. Tinha que ser rápido, ágil, econômico na forma e transbordante no sentido. E aí não tive mais dúvida. Se fosse pra imitar alguém, eu já sabia quem. E com a prática, fui ganhando personalidade. Poesia é que me põe no lugar. Esses quinze anos, do ponto de vista das dificuldades, foram ricos: a família de burocratas e engenheiros-médicos-pedagogos que nunca entendeu o que eu era, eu mesma sem saber o que fazer com aquele prurido maluco que me vinha, aquela angústia barra pesada, a falta de revistas e jornais pra publicar jovens autores em Belo Horizonte. Até que eu conheci um cara foda chamado Edward, que me fez desengavetar meus textos e encarar uns jornais, uns concursos. Esse cara é que me jogou na roda. E olha que ele era médico! E daí publiquei, ganhei concurso, fiz livro, Anelito de Oliveira, Marcelo Dolabela, Luciana Tonelli. Depois conheci (de um jeito diferente) Joca Reiners Terron, um louco louro, de olhos verdes, que me pôs numa roda ainda mais interessante. E ganhei ares de perversa.


2. A poesia tem que ser simples?

* A minha, sim. A dos outros tem que ser o que eles quiserem. Tem uns caras que escrevem coisas complexas e lindas. Tem outros que só escrevem coisas complexas. E enchem o saco. Tem uns caras que escrevem coisas simples e lindas. Tem uns que escrevem coisas simples que não dizem nada. Mas a minha poesia tem que ser do jeito que ela nasce. E se ela é simples é porque ela é fácil, arejada. Mas se você ler com disposição, vai ver que não é assim tão simples. E se tentar fazer uma, vai corroborar a primeira tese.

3. Por que você não quis se contaminar pela poesia de academia?

* Pra começar, a academia não faz poesia. Porque eu acho um saco você passar a vida lendo sobre os caras. Acho que poesia, literatura, música e quetais têm que ser lidos, o livro tem que estar na mão do leitor. E eu sempre preferi me contaminar na biblioteca pública perto da minha casa do que ficar escutando aula sobre a obra de fulano ou cicrano. A academia (ao menos as universidades de Minas) têm um ranço de muito blábláblá e pouca prática. Sou louca por literatura, especialmente pelos gêneros mais curtos, e no entanto fiz mestrado em Lingüística, pra não sofrer demais ouvindo balelas sobre Graciliano, Leminski ou Nassar. Eu quero é o meu olho na página. O olho do dr. Fulanowski, ph.D. em Literatura Comparada, não me interessa. E esses caras costumam não estar minimamente antenados com a literatura nova, que rola hoje, nas cidades e nos interiores. É foda. E eu escolhi experimentar literatura per se, música per se (imagine se você lesse as resenhas e jamais ouvisse o CD?).

4. Como é ser professora de escola fundamental?

* É uma viagem, porque os garotos ainda não estão totalmente ferrados. Você encara um menino de 9 anos, mete um livro na mão dele e ele sai com uma tirada inteligentíssima sobre o que leu. E ele te traz um poema que ele fez na aula seguinte. Daí você vai à reunião de pais da escola e conversa com o pai ou a mãe dele. E aí entende que aquele guri não terá futuro nenhum nas artes (exceto se for um desajustado, como eu, um insistente e persistente). A mãe diz, com todas as poucas letras que ela sabe usar, que Literatura é inútil, que é idiota, mas que ele terá que fazer prova disso quando fizer vestibular pra Direito (para se tornar um grande juiz e aprender a fazer citações bem óbvias e colocadas de Drummond ou outro canônico qualquer). Cara, aí você torce para aquele garoto conseguir manter aquele lance excitado que ele tem aos 9 anos. Eu dou aula pra todas as turmas, da segunda série à oitava, então eu acompanho os alunos a vida inteira, numa fase em que eles mudam muito. Pode ser que eu consiga fazer mesmo um acompanhamento interessante da vida deles. Embora certos pais metidos a anta possam me atrapalhar. Mas o ensino fundamental é a raiz da coisa. Acho que os caras se interessam pelos livros, invadem a biblioteca da escola na hora do recreio e ainda não foram completamente lesados pelo protocolo que os tornará adultos pragmáticos.

5. É mais fácil ser lingüista ou poeta?

* É mais fácil produzir poesia. Pra mim, é muito mais fácil compor um poema do que uma dissertação sobre a Teoria da Relevância, de Sperber & Wilson. É muito mais duro redigir 150 páginas de secura e pseudo-objetividade. Escrever poesia é música, é respirar. Fica fácil. Mas ser poeta é mais difícil do que ser lingüista. Ser poeta não dá muita grana. Ser poeta não estabelece emprego e nem constitui microempresa. Ser lingüista dá dinheiro pra sobreviver, empreguinho de professora, 50 paus hora/aula, título no currículo, status na escola, chateação de gente grande. Mas meu orgasmo é pela poesia. A lingüística favorece a credibilidade e os seminários cheios de doutores. E uns encontros com meu orientador bonitão. Outro dia compus uma letra pra uma música do Rafael, um “amigo” guitarrista de jazz, e me senti deitada na rede, em casa. E pensei: porra, é isto!

6. Como é ser uma revisora bem-sucedida?

* Eu ainda não sou bem-sucedida como gostaria. Mas chego lá no dia em que as editoras de Minas forem mais profissionais e entenderem que tem que ter gente qualificada pra exercer essa tarefa. Revisor bom é desconfiado. Só isso. Talvez seja interessante esta minha conjunção de fatores: sou mineira, virginiana, mulher, caxias e apaixonadíssima pela minha língua. Um revisor não precisa saber nada de cor. O cara que corrige texto sem consultar é um arrogante, deixa passar muita coisa. Tem que trabalhar com os dicionários todos abertos, os manuais e gramáticas todos à mão. E eu sou rigorosa, chata. E depois o dono do texto resolve se vai ou não aceitar minhas sugestões. Eu sei é que gostam do que eu faço. E eu ainda edito e escrevo, então fica tudo em casa. Eu olho uma coisa, acho esquisita, ou acho óbvia demais, e vou pesquisar. E revisor não pode ser preguiçoso. Tem que ser cureta, pente-fino mesmo. E relaxar quando o autor vier encher o saco ou quiser saber detalhes sobre tudo o que o revisor fez. Revisor tem que ser diplomático. Quanto mais graduado e foda é o autor do texto, mais chata é a revisão, porque o cara cisma que sabe tudo e não aceita correção. Pensa que o revisor está competindo com ele. E aí vira uma merda. O revisor tem que aprender a falar termo técnico de vez em quando, pra esses casos de babaquice aguda. E também tem aquele caso clássico dos parentes e amigos que ligam pra pedir um “favorzinho”: “dá uma olhadinha no meu texto aí pra mim. É rapidinho”. Revisor bom não dá olhadinha. Essa olhadinha é demorada, tem preço e custou anos de estudo e especialização. Ela é altamente qualificada (quando é). E aí não tem essa de olhadinha. Revisor não pode queimar o filme.

7. Pra que serve a poesia?

Pra um monte de coisa. Pra treinar estilo e caligrafia. Ou pra pregar no quadro de metal com ímã. Ou pra dizer pros amigos que é poeta. Ou pra recitar no aniversário da avó. Ou pra escrever na agenda, sem registrar o nome do autor. Ou pra passar cantada em alguém. Ou pra aliviar a alma. Ou pra soltar o Id, matar o Superego de ódio, ignorar o Ego. Ou pra manter alguém vivo. Ou pra regenerar talho feito por relacionamento fracassado. Ou pra falar do mundo de um jeito menos trivial. Ou pra testar os limites e deslimites da língua, ou da linguagem. Ou pra nada. Ou pra estudar no colégio. Ou pra tudo na vida. Ou pra filosofar de um jeito menos pedante. Sei lá. O efeito da poesia em mim é o de me manter acordada, viva, sem bala no crânio.

8. Com quantas metáforas se faz um poema?

* Muitas ou nenhuma. Acho que a gente fala e faz qualquer coisa com metáfora. Se você pensar, metáfora é muito mais comum do que literalidade. É difícil demais falar tudo ao pé da letra. Não existe isso. A linguagem é, por excelência, o lugar da metáfora. Gíria é metáfora. E eu acho que a poesia é só mais uma derivação disso. Talvez um pouco mais surpreendente. A Lingüística de ponta produz muito trabalho interessante sobre a metáfora, e muito mais inteligente do que aquele papo de Figuras de Linguagem.

9. Tem algum mote? Fale sobre:

* ah, amores e desamores. Eu entro nos relacionamentos e saio deles pronta pra encarar o teclado do meu computador. Se o lance der certo, sei que terei um longo período de seca poética. Se der errado, sei que vou produzir muito, ter dificuldade de dormir. E se der certo e não terminar, eu arrumo um jeito de dar errado. O mote é este: work in progress.

10. Qual o papel do escritor na sociedade?

* Escrever coisas mais inteligentes do que as reportagens de jornais, mais bonitas do que os textos de outdoor e mais interessantes do que os bilhetes de porta de geladeira. Mas se um escritor fizer qualquer uma dessas coisas, elas deixarão de ser o que elas são e se tornarão peças de escritor. Ser escritor é um negócio engraçado, porque deixa marca em tudo o que você produz. E as pessoas passam a ter medo de escrever pra você. E pedem desculpas quando mandam uma carta, um e-mail, um bilhete. Quando se é escritora e revisora então... fica impossível a comunicação via escrita. O papel do escritor é escrever. Mas é escrever pra ser menos lido do que os outros elementos que escrevem na nossa sociedade. Isso é que é uma pena.



POEMAS DE ANA ELISA:

SELETINHA

Meia crise

Não sei se amo
Ou se mato

Ou calo
Ou racho

Não sei o quanto minto
Ou fico
Ou sinto

Ou choro
Ou sento
Não sei como te agüento

(Perversa, São Paulo, Ciência do Acidente, 2002)

Leis físicas II

cada um devia
caber em si
evitar o espaço do outro

cada um na sua
sem muito
nem pouco

cada um no limite
no tempo-espaço
que cabe a um só corpo

no máximo
na intrusão
de um abraço

(Perversa, São Paulo, Ciência do Acidente, 2002)

Pessimismo adulto

Mais nova
Tudo era bonito
Agora
menos nova
tudo
uma ova

(Perversa, São Paulo, Ciência do Acidente, 2002)

Pouso forçado

Belo Horizonte está sob meus pés.
O clima, o sotaque e a luz
não deixam meus sentidos me enganarem.
Mas minha cabeça,
turrona,
teimosa,
mas amena,
continua
na Vila Madalena.

(poema inédito)

é inverno
ele sabe que meu sexo
é interno

olha pra mim
quando sai do banho
e eu o ganho

vem tirando a toalha
barba feita
a navalha

na minha carne
se esparrama
bom de cama

e a vida
fica sendo essa
boa à beça

(poema inédito)

entrevista concedida a Rodrigo de souza leão

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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